Ilustração Capixaba: Da Arte Digital à Valorização Profissional
Foto: Lisye Freire / Acervo pessoalA arte da ilustração, frequentemente percebida apenas como um mero apelo estético, revela uma complexidade que engloba pesquisa aprofundada, desenvolvimento conceitual, dedicação temporal e experiência profissional. Artistas no Espírito Santo têm expandido a presença dessa disciplina, seja através de produções digitais, murais urbanos ou trabalhos em papel, integrando referências do cotidiano, cultura pop e a identidade local em suas criações.
A transição da paixão pela arte para uma carreira consolidada na ilustração exige, para muitos, uma jornada de perseverança. O processo criativo inicia-se na coleta de diversas referências, que culminam na concepção de personagens, cenários e narrativas visuais, mesclando influências globais com particularidades regionais.
No caso da ilustradora Lisye Freire, o fascínio pela arte sempre esteve presente, mas o desenho permaneceu como um hobby por um período, devido ao reconhecimento limitado da ilustração como profissão. Um ponto de virada ocorreu durante o período de pandemia, quando a dedicação à literatura infantil, inspirada pelo universo de sua filha, a impulsionou a retomar o desenho com maior seriedade e a transformar essa habilidade em uma carreira.
Atualmente, Lisye foca na ilustração de livros infantis, utilizando uma paleta de cores vibrantes, texturas ricas e uma combinação de técnicas tradicionais e digitais para manter a essência do trabalho manual em suas produções. Seu estilo é caracterizado por uma abordagem que harmoniza o clássico e o contemporâneo.
Apesar do crescimento da cena ilustrativa no estado, os profissionais da área ainda lidam com obstáculos significativos. Questões como a valorização do trabalho artístico, a definição de preços adequados e a busca por novas oportunidades de mercado são debates constantes entre os ilustradores.
A ilustradora Bárbara Satler expressa que o espaço para a atuação profissional ainda é restrito. Ela observa que, embora algumas empresas e estabelecimentos contratem artistas para projetos pontuais, o acesso a esses trabalhos é, em grande parte, dominado por profissionais com maior projeção.
Um ponto de atenção ressaltado por Satler é a dificuldade em transmitir a complexidade do trabalho manual para alguns clientes, que por vezes o equiparam a um simples comando para inteligência artificial. Ajustes em etapas avançadas de um projeto, que exigem rehacer partes significativas do trabalho, exemplificam essa falta de compreensão.
Em contrapartida, as plataformas digitais têm aberto portas para a divulgação e a conquista de oportunidades internacionais. Embora a divulgação em redes sociais represente uma tarefa adicional, seu valor para a expansão do alcance é inegável. Um aspecto negativo desse ambiente, no entanto, é a facilidade com que a comparação entre artistas pode gerar insegurança.
O trabalho de Satler, marcado por um estilo vintage e influências de coleções de papéis de carta da infância, tem sido requisitado para projetos em publicidade, criação de livros e gestão de redes sociais. Ela também destaca a participação de ilustradores na concepção de estampas para vestuário, desenvolvimento de identidade visual e processos de rebranding.
As ilustrações produzidas pelos artistas capixabas transcendem a mera representação visual, carregando narrativas, emoções e perspectivas únicas, demonstrando a força da criatividade como ferramenta para interpretar e contar histórias sobre o mundo.



