Perda Cultural Amazônica em Risco: Mudanças Climáticas Ameaçam Saberes Ancestrais
Foto: Divulgação/clima Info/Fernando Frazão/Agência BrasilA biodiversidade amazônica, essencial para a subsistência e cultura de suas populações, enfrenta um desafio sem precedentes. Um estudo inovador, publicado na renomada revista Nature, projeta que as mudanças climáticas podem levar à extinção local de até um terço das espécies de plantas utilizadas pelas sociedades amazônicas em seu cotidiano. A pesquisa destaca o perigo iminente não apenas para a riqueza natural da região, mas também para o legado cultural e o conhecimento tradicional.
A investigação, conduzida por pesquisadores da Universidade de Zurique e da Conservation International, revela um cenário preocupante: a diminuição da diversidade vegetal, associada ao desaparecimento de línguas indígenas, pode resultar na perda de aproximadamente um quarto do conhecimento documentado sobre o uso de plantas amazônicas até o final deste século.
Para chegar a essas conclusões, os cientistas analisaram mais de 90 mil registros do uso de plantas por Povos Indígenas, coletados entre 1504 e 2023. A análise dos dados indicou que a preservação da sabedoria ancestral está intrinsecamente ligada à vitalidade das línguas nativas, muitas das quais correm risco de desaparecimento.
Detalhes da pesquisa evidenciam a fragilidade desse patrimônio:
Mais da metade dos registros históricos sobre o uso de plantas foram documentados em 156 línguas indígenas distintas.
Um alarmante 56% dessas línguas estão em situação crítica de extinção, o que pode significar a perda irreversível de conhecimentos sobre remédios, rituais e práticas alimentares que nunca foram traduzidos ou formalizados.
Os pesquisadores modelaram os impactos do aquecimento global na distribuição geográfica das espécies vegetais da Amazônia, considerando diferentes cenários de políticas ambientais e climáticas:
Cenário de Mitigação (cumprimento rigoroso das metas climáticas atuais): Preveem-se perdas locais médias de espécies em torno de 28%.
Adoção de ações mínimas de controle ambiental: A projeção aponta para perdas locais médias de cerca de 30%.
Ausência total de políticas de intervenção global: Neste cenário mais drástico, as perdas locais médias de espécies podem atingir 34%.
Os autores do estudo alertam que essas reduções na diversidade vegetal "podem ter consequências críticas para as sociedades amazônicas ao comprometer diretamente a integridade de seu ecossistema".
A Bacia Amazônica é reconhecida como um centro global de patrimônio biocultural, abrigando mais de 10% da biodiversidade terrestre do planeta e sendo o lar de mais de 400 grupos indígenas. Conforme reforça um artigo complementar publicado na Nature, a pesquisadora Victoria Reyes-García, da Universidade Autônoma de Barcelona, ressalta a urgência da situação: aproximadamente 300 milhões de hectares da floresta já sofreram degradação ou fragmentação severas, impactando diretamente os meios de subsistência e a identidade cultural das populações originárias.



