QUEM EDUCARÁ NOSSOS FILHOS: PROFESSORES OU ALGORITMOS?
Foto: DivulgaçãoVivemos um momento, no mínimo paradoxal; em que nunca tivemos acesso a tanta informação, tantas ferramentas digitais e tantos recursos de inteligência artificial e, ao mesmo tempo, nunca foi tão urgente perguntar: quem está sendo preparado para ensinar as próximas gerações a pensar?
A pergunta pode até parecer exagerada, mas os dados mais recentes sobre a formação docente no Brasil mostram que ela talvez seja uma das questões mais importantes da educação brasileira.
Os resultados do novo Enade das Licenciaturas acenderam um alerta nacional. Apenas 20% dos futuros professores alcançaram o padrão considerado adequado ao final da graduação. Na modalidade a distância, o cenário é ainda mais preocupante: apenas 12% atingiram esse nível. Mais da metade dos estudantes de licenciatura na EaD ficou abaixo do nível básico de desempenho. Além disso, cerca de 38% dos cursos avaliados receberam conceitos 1 ou 2, considerados insatisfatórios pelo sistema de avaliação.
Esses números não representam apenas estatísticas acadêmicas. Eles revelam a qualidade da formação daqueles que estarão diante das crianças e jovens brasileiros nos próximos anos, e o problema se torna ainda mais complexo quando observamos a chegada acelerada da inteligência artificial às escolas e universidades.
Hoje, um estudante consegue produzir um trabalho inteiro em poucos minutos utilizando ferramentas como o ChatGPT. Em muitos casos, basta digitar uma pergunta, copiar a resposta e colar no documento final. A tecnologia é extraordinária, jamais serei contra ela; porém, o problema surge quando ela substitui o processo de aprendizagem.
Estamos assistindo à popularização de uma cultura do "copiar e colar" sofisticado: o texto parece autoral, a linguagem parece elaborada, o resultado parece correto; mas, frequentemente, o estudante não desenvolveu as competências necessárias para construir aquele raciocínio e ele nem sabe disso, pois SEQUER, leu o que o GPT escreveu para ele.
Agora imagine o impacto disso na formação dos futuros professores. Se a graduação deixa de estimular leitura profunda, escrita autoral, argumentação crítica e resolução de problemas, o risco é formar educadores que sabem utilizar ferramentas digitais, mas não dominam plenamente os conhecimentos que deveriam ensinar.
A inteligência artificial não ameaça a profissão docente porque responde perguntas. Ela ameaça quando encontra profissionais que não conseguem formular boas perguntas. Nenhum algoritmo substitui um professor capaz de despertar curiosidade, desenvolver pensamento crítico, orientar projetos de vida e ajudar estudantes a interpretar a complexidade do mundo. Mas um algoritmo pode ocupar espaços deixados por uma formação insuficiente.
O desafio não está em proibir a IA, pois essa batalha já está perdida e nem deveria ser travada. O desafio é muito mais profundo: formar professores capazes de usar a inteligência artificial como instrumento pedagógico sem abrir mão da autonomia intelectual.
Isso exige mudanças urgentes nas licenciaturas: mais prática pedagógica, mais rigor acadêmico, mais leitura, mais produção autoral e mais aproximação entre universidade e escola; mais que isso, exige também que a avaliação da formação docente seja tratada como prioridade nacional.
Quem ensinará nossos jovens a distinguir conhecimento de informação? Quem os ajudará a diferenciar argumento de opinião? Quem os preparará para conviver com algoritmos sem se tornar dependente deles? A resposta não pode ser a inteligência artificial. A resposta precisa continuar sendo o professor.
Mas para que isso aconteça, precisamos garantir que os professores do futuro recebam uma formação à altura dos desafios do século XXI. Caso contrário, não serão os algoritmos que substituirão os educadores. Seremos nós que deixaremos de formar educadores capazes de cumprir sua missão.



