Governo do ES questiona investigação e reanalisa Operação Baest
Foto: Reprodução | PCESO Governo do Espírito Santo levantou nesta segunda-feira (2) a tese de que o delegado Romualdo Gianordoli Neto, ex-subsecretário de Inteligência da Secretaria de Estado da Segurança Pública, teria operado um "centro de investigação paralelo". Segundo as autoridades, relatórios elaborados por essa suposta estrutura não chegavam ao conhecimento da cúpula da pasta.
A declaração foi feita em coletiva de imprensa pelo delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, acompanhado pelos secretários de Segurança Pública e Defesa Social, Leonardo Damasceno, e de Economia e Planejamento, Álvaro Duboc.
Romualdo Gianordoli refutou as alegações, negando veementemente a existência de qualquer centro de investigação paralelo, que classificou como inexistente e impossível.
Este pronunciamento marca a primeira vez, desde a saída de Gianordoli do Centro de Investigação de Análise Telemática (Ciat) em outubro do ano passado, que o governo se manifesta oficialmente sobre os motivos de sua exoneração.
Gianordoli foi transferido para a Delegacia Especializada de Acidente de Trabalho (Deat) em janeiro, atuando na região metropolitana de Vitória. Em 2024, ele liderou a operação que resultou na prisão do indivíduo conhecido como Marujo.
Reanálise de Evidências da Operação Baest
Em paralelo, o governo anunciou a revisão de todas as evidências coletadas na Operação Baest. Concluída em setembro do ano passado, a operação visava desarticular o braço financeiro de organizações criminosas no estado.
A decisão de reexaminar as apurações foi desencadeada por um depoimento de Gianordoli à Corregedoria da corporação em fevereiro deste ano. Na ocasião, o delegado confirmou a existência de conversas em um aparelho celular de um empresário da Serra, investigado na Baest, com o desembargador Macário Júdice Neto. O magistrado foi preso no Rio de Janeiro sob suspeita de obstrução de investigação.
De acordo com o secretário Leonardo Damasceno, o relatório final da Operação Baest, assinado por Gianordoli e outros delegados em setembro de 2023, não mencionava os diálogos ou a relação com o desembargador.
O delegado-geral Arruda questionou a conduta de Gianordoli, afirmando:
"Ele criou um Ciat paralelo.
Agora, a Corregedoria quer saber dele.
Por que fez isso por fora?
O que o levou a fazer isso?
Qual era a intenção?
Qual era o objetivo?
Por que não pediu ao Ministério Público e ao Poder Judiciário uma autorização para compartilhar as informações?
Por que ficou de maio a setembro com esse material escondido?
É isso o que queremos saber dele"
As autoridades explicaram que, em situações envolvendo prerrogativas de foro e a competência de diferentes instâncias judiciais, as informações não deveriam ter permanecido sob a posse exclusiva de um único delegado.
Versão do Delegado Gianordoli
Em contato, Gianordoli contestou as acusações, reiterando a inexistência de um "Ciat paralelo" e classificando a narrativa oficial como "artificial, conveniente e absolutamente dissociada da realidade dos fatos".
O delegado defendeu que seguiu os procedimentos históricos do Ciat, com uma fase inicial de tramitação física antes da digitalização para o processo eletrônico. Ele classificou a tentativa de caracterizar sua conduta como irregular como um ato de "desonestidade intelectual ou, no máximo, má-fé deliberada".
Histórico de Declarações e Depoimento
Ao final de 2023, após sua exoneração, Gianordoli usou redes sociais para alegar que sua saída e a de outros delegados do Ciat ocorreram após a identificação de supostas ligações de indivíduos com o governo estadual na Operação Baest, o que teria travado as investigações. Ele também declarou que a Polícia Civil estaria "corroída".
Em resposta a essas declarações, a Corregedoria da Polícia Civil abriu um inquérito e convocou o delegado a depor em 2 de fevereiro. Durante seu depoimento, Gianordoli revelou que o relatório final da Operação Baest foi concluído sem a inclusão de dados telefônicos de um empresário da Serra com conversas com o desembargador Macário Júdice Neto.
Posteriormente, surgiram especulações de que Gianordoli e outros delegados teriam sido exonerados pela menção do nome de Macário, o que foi negado pelo secretário de Segurança.
No entanto, Leonardo Damasceno indicou que as exonerações foram motivadas por uma quebra de confiança na relação entre o delegado e o chefe da Polícia Civil. Damasceno também afirmou que Gianordoli teria retirado computadores com conteúdo pertencente à Polícia Civil ao deixar o Ciat.
José Darcy Arruda esclareceu que as ferramentas do Ciat são auditáveis, permitindo o acesso da corporação às informações geradas. Contudo, ele alegou que, neste caso, parte das informações foi processada por meios não acessíveis ao comando da corporação.
Com base nisso, a Polícia Civil decidiu reanalisar todas as evidências da Operação Baest e avaliar a possibilidade de uma segunda fase para aprofundar as investigações sobre os diálogos entre o empresário e o desembargador, visto que o conteúdo não constou no relatório final, conforme explicou Álvaro Duboc.
Duboc ressaltou que, em casos envolvendo prerrogativas de foro e competência de diferentes instâncias, o procedimento correto seria o encaminhamento imediato à autoridade competente assim que identificada qualquer irregularidade. Ele lamentou que tal medida pareça não ter sido adotada e que os delegados deveriam ter tomado tal providência ao tomar conhecimento da relação entre o empresário e o magistrado.
Manifestações dos Envolvidos
Gianordoli argumentou que a primeira fase da investigação foi concluída de forma técnica e responsável, com os alvos consolidados, e que foi solicitado o compartilhamento de provas para avançar à segunda fase. Ele considerou que incluir nomes de investigados da próxima fase no relatório final seria uma irresponsabilidade funcional e violação de sigilo, definindo tal ato como "sabotagem da investigação" e "entrega do jogo".
O delegado concluiu que a elaboração de um relatório mais robusto e completo foi inviabilizada pela desestruturação do núcleo investigativo.
A defesa do empresário investigado na Operação Baest declarou que as imputações são infundadas e motivadas por interesses políticos e de autopromoção, destacando que, após seis meses da conclusão do relatório, nenhuma denúncia foi apresentada e nenhum processo penal foi instaurado.
O Ministério Público do Espírito Santo e a defesa de Macário Júdice Neto foram contatados, mas não se pronunciaram até o momento da publicação desta notícia.
Associação do Governador com Macário Neto
Recentemente, o nome do governador Renato Casagrande foi associado a Macário Judice Neto, após a Polícia Federal solicitar a abertura de um inquérito devido a trocas de mensagens via WhatsApp entre ambos. O governo estadual negou qualquer ilegalidade, descrevendo a conversa como "republicana, institucional e preocupada com a instabilidade política de um município". Nesta segunda-feira, o secretário de Segurança, Leonardo Damasceno, reforçou que as mensagens entre o governador e o juiz federal não possuem relação com a Operação Baest.



