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A NOVA ALFABETIZAÇÃO: ENTENDER A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL OU SER DOMINADO POR ELA

Janaina Dardengo 25/06/2026
A NOVA ALFABETIZAÇÃO: ENTENDER A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL OU SER DOMINADO POR ELA

Você deixaria uma criança sem aprender a ler e escrever? A resposta parece óbvia. No entanto, estamos fazendo algo semelhante quando permitimos que milhões de jovens concluam sua formação sem compreender minimamente a tecnologia que está transformando o trabalho, a economia, a informação e a própria vida em sociedade.

Durante séculos, a alfabetização foi entendida como a capacidade de ler, escrever e interpretar textos. Mais tarde, ampliamos esse conceito para incluir competências matemáticas, científicas e digitais. Agora, uma nova fronteira se impõe: a alfabetização em inteligência artificial.

Não se trata de formar programadores ou especialistas em tecnologia. Trata-se de garantir que as pessoas compreendam como funcionam os sistemas que já influenciam suas escolhas, seu acesso à informação, suas oportunidades profissionais e até mesmo as decisões que afetam seu cotidiano.

A inteligência artificial deixou de ser uma tecnologia do futuro. Ela está presente nos mecanismos de busca, nos aplicativos de navegação, nas plataformas de entretenimento, nos bancos, nos hospitais, nas indústrias e, cada vez mais, nas escolas. Muitas vezes, ela opera de forma invisível, moldando comportamentos sem que percebamos.

É justamente por isso que compreender seus limites e potencialidades tornou-se uma competência essencial.

Historicamente, cada grande transformação tecnológica exigiu uma resposta educacional. A Revolução Industrial demandou novas habilidades técnicas. A sociedade da informação ampliou a necessidade de competências digitais. Agora, a economia baseada em dados e inteligência artificial exige algo ainda mais complexo: a capacidade de interagir criticamente com sistemas inteligentes.

O risco não está apenas na automação de tarefas. O risco está na criação de uma nova desigualdade entre aqueles que sabem utilizar a tecnologia de forma estratégica e aqueles que apenas a consomem passivamente.

Quem compreende inteligência artificial consegue ampliar produtividade, aprender mais rápido, tomar decisões melhores e criar novas soluções para problemas antigos. Quem não compreende torna-se dependente de ferramentas que não domina e vulnerável à manipulação de informações, algoritmos e conteúdos produzidos automaticamente.

Essa discussão é particularmente urgente para a educação brasileira. Enquanto alguns países já incorporam o ensino de inteligência artificial em suas políticas educacionais, muitas escolas ainda discutem se os estudantes deveriam ou não utilizar essas ferramentas. A questão mais relevante, porém, não é proibir ou permitir. É ensinar.

A escola não pode competir com a tecnologia ignorando sua existência. Precisa ensinar os estudantes a questioná-la, compreendê-la e utilizá-la com responsabilidade.

Isso inclui aprender a formular boas perguntas, avaliar a qualidade das respostas, identificar vieses, verificar informações e compreender os impactos éticos e sociais da inteligência artificial. Em outras palavras, desenvolver pensamento crítico em um ambiente cada vez mais mediado por máquinas.

O mercado de trabalho já sinaliza essa mudança. Profissionais de praticamente todas as áreas — saúde, educação, direito, comunicação, indústria, comércio e serviços — começam a incorporar ferramentas de IA em suas rotinas. Não se trata de uma competência restrita ao setor tecnológico. Trata-se de uma nova linguagem profissional.

Da mesma forma que ninguém questiona hoje a importância de saber utilizar um computador ou navegar na internet, em poucos anos será difícil imaginar profissionais qualificados sem conhecimentos básicos sobre inteligência artificial.

Mas existe uma dimensão ainda mais importante do que a econômica.

A compreensão da inteligência artificial tornou-se uma questão de cidadania. Democracias dependem de cidadãos capazes de interpretar informações, compreender riscos e participar conscientemente dos debates públicos. Em um mundo onde algoritmos influenciam opiniões e decisões, a ignorância tecnológica pode significar perda de autonomia.

Por isso, a grande pergunta para educadores, gestores públicos e famílias não é se a inteligência artificial fará parte da vida das novas gerações. Ela já faz.

A pergunta é outra: estamos preparando nossos jovens para compreender essa tecnologia ou apenas para serem conduzidos por ela?

A resposta a essa questão poderá definir não apenas o futuro do trabalho, mas a qualidade da nossa cidadania nas próximas décadas.

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