Quando uma feira movimenta muito mais do que negócios
Foto: Cachoeiro Stone FairEm agosto, Cachoeiro de Itapemirim muda de ritmo. As ruas ficam mais movimentadas, os hotéis operam perto da lotação, os restaurantes ampliam o atendimento e diferentes idiomas passam a fazer parte da rotina da cidade. Quem chega para a Feira do Mármore e Granito vem para fechar negócios, conhecer tecnologias, visitar empresas e descobrir tendências de um setor em que o Espírito Santo ocupa posição de destaque no cenário mundial. Mas a feira revela algo que vai muito além das rochas ornamentais. Ela mostra como uma vocação econômica é capaz de transformar uma cidade inteira.
Enquanto muitos enxergam apenas máquinas de corte, chapas de quartzito e blocos de granito prontos para exportação, a cidade vive outra realidade. Motoristas transportam visitantes, recepcionistas recebem delegações internacionais, hotéis contratam equipes extras, restaurantes ampliam turnos, fotógrafos registram lançamentos, produtores organizam eventos paralelos e profissionais de comunicação abastecem as redes sociais com informações em tempo real.
É uma cadeia de oportunidades que começa muito antes da indústria e termina muito depois dela e uma pergunta é inevitável: nossas escolas conseguem enxergar tudo isso?
Durante décadas, acostumamo-nos a pensar que educação e desenvolvimento econômico pertenciam a mundos diferentes. A escola ensinava; o mercado contratava. Hoje, essa separação já não faz sentido.
Os territórios mais competitivos do mundo têm algo em comum: conhecem suas vocações e fazem da educação uma parceira do desenvolvimento. Não para formar mão de obra de curto prazo, mas para formar pessoas capazes de inovar, empreender e ampliar as possibilidades que aquela atividade econômica oferece, e é exatamente essa oportunidade que Cachoeiro de Itapemirim tem diante de si.
Quando pensamos no setor de rochas ornamentais, normalmente lembramos da indústria. Mas uma feira internacional exige muito mais do que engenheiros, geólogos ou operadores de máquinas. Ela precisa de profissionais que dominem idiomas, logística, tecnologia, marketing, hospitalidade, design, comércio exterior, sustentabilidade, produção audiovisual e organização de eventos; precisa, inclusive, de quem saiba contar ao mundo a história desse território. Isso significa que o turismo também passa a ser uma profissão estratégica.
Cada visitante que chega para negociar mármore e granito também consome cultura, gastronomia, hospedagem, transporte e experiências locais. Cada empresário que prolonga sua estadia movimenta uma rede de serviços que muitas vezes permanece invisível quando falamos sobre desenvolvimento regional.
Por isso, talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Em vez de discutir quais cursos a escola deve oferecer, deveríamos perguntar: como a educação pode ajudar uma cidade a compreender melhor suas próprias potencialidades?
Imagine alunos do ensino médio participando da feira como monitores bilíngues. Estudantes de tecnologia desenvolvendo soluções para empresas expositoras. Jovens da área de comunicação produzindo conteúdo digital sobre o evento. Alunos de turismo criando roteiros que apresentem aos visitantes a história, a gastronomia e o patrimônio cultural do sul do Espírito Santo. Futuros empreendedores observando, durante alguns dias, como uma cadeia produtiva se conecta ao mercado internacional.
Isso é aprendizagem. E, talvez, uma das mais significativas.
Felizmente, essa aproximação já começou. Instituições como o Ifes, o Senai e universidades da região oferecem formações ligadas à engenharia, automação, gestão, logística e tecnologia. O próximo passo, porém, é construir uma integração ainda maior entre escolas, empresas, poder público e organizações da sociedade, para que grandes eventos deixem de ser apenas vitrines de negócios e se transformem também em espaços permanentes de formação.
Essa lógica vale para muito além de Cachoeiro no norte do Espírito Santo, a silvicultura e a indústria de base abrem possibilidades de inovação. Nas regiões produtoras de café, há espaço para pesquisa, tecnologia, turismo rural e agregação de valor. No litoral, o turismo, a economia do mar e a logística desenham novas profissões. Em cada território existe uma pergunta que a educação precisa fazer: quais oportunidades estamos deixando passar porque insistimos em ensinar como se todas as cidades fossem iguais? Educação conectada à vocação econômica não é educação subordinada ao mercado. É educação conectada à realidade, sem perder sua missão de formar cidadãos críticos, criativos e preparados para transformar o lugar onde vivem.
Quando os portões da Feira do Mármore e Granito se fecharem, os estandes serão desmontados e os visitantes voltarão para casa. Mas a pergunta permanecerá em Cachoeiro: queremos apenas sediar uma das maiores feiras do setor ou queremos fazer dela um grande laboratório de aprendizagem, inovação e desenvolvimento?
Porque as riquezas naturais podem colocar uma cidade no mapa. Mas são as pessoas, e a educação que as forma, que decidem até onde ela pode chegar.



