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BETS, DÍVIDAS E EVASÃO: A GERAÇÃO QUE ESTÁ TROCANDO DIPLOMA POR APOSTA.

Janaina Dardengo 05/05/2026
BETS, DÍVIDAS E EVASÃO: A GERAÇÃO QUE ESTÁ TROCANDO DIPLOMA POR APOSTA.

Você já ouviu um jovem dizer que “com uma aposta certa” consegue ganhar, em uma noite, o que levaria meses para conquistar estudando? Essa frase, cada vez mais comum, ajuda a explicar um fenômeno silencioso e preocupante: as plataformas de apostas estão competindo diretamente com a escola, com a faculdade e com os projetos de futuro de milhões de brasileiros.

Nos últimos anos, o Brasil assistiu à explosão das bets. Elas invadiram o futebol, os influenciadores digitais, as redes sociais e até o cotidiano de adolescentes e jovens adultos. O problema é que essa expansão não trouxe apenas entretenimento. Trouxe também endividamento, compulsão, abandono de planos educacionais e uma perigosa distorção da relação entre esforço e recompensa.

Uma pesquisa divulgada pela Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior mostrou que 34% dos jovens entre 18 e 35 anos adiaram a entrada na faculdade em 2025 por causa dos gastos com apostas online. Entre os estudantes já matriculados, 14% atrasaram mensalidades ou chegaram a trancar o curso pelo mesmo motivo.

O dado é alarmante porque revela algo maior do que um problema financeiro. O que está em jogo é a substituição da lógica da formação pela lógica do ganho instantâneo. Para muitos jovens, especialmente os mais vulneráveis economicamente, estudar passou a parecer um investimento lento demais. Trabalhar, se qualificar e esperar anos por estabilidade virou um caminho menos sedutor do que a promessa de dinheiro rápido oferecida por aplicativos que funcionam 24 horas por dia.

Essa lógica afeta principalmente as classes C, D e E, justamente as que mais dependem da educação como instrumento de mobilidade social. Em vez de poupar para pagar uma mensalidade, comprar um curso técnico ou investir em uma formação profissional, milhares de jovens estão usando parte da renda em apostas esportivas.

O problema é agravado por um ambiente de publicidade agressiva. As bets se apresentam como entretenimento, mas utilizam mecanismos psicológicos semelhantes aos dos jogos eletrônicos e das redes sociais: recompensas rápidas, estímulos constantes e sensação de controle. Para muitos adolescentes, apostar não parece um jogo de azar. Parece uma habilidade. Parece inteligência. Parece empreendedorismo. Mas não é.

Especialistas já alertam que o contato precoce com apostas pode comprometer não apenas a saúde financeira dos jovens, mas também sua percepção sobre trabalho, disciplina e mérito. Quando alguém cresce acreditando que ganhar dinheiro depende mais de sorte do que de preparação, a escola perde valor simbólico. E quando a escola perde valor simbólico, o país perde futuro.

O Brasil já enfrenta um cenário de endividamento crescente entre jovens e famílias. Em abril de 2025, o país tinha 76,6 milhões de inadimplentes. Entre os jovens de 18 a 25 anos, a inadimplência já representa uma parcela significativa do problema. Quase metade dos apostadores brasileiros está endividada, e a maior parte deles é composta por homens jovens, de baixa renda e com pouca educação financeira.

No Espírito Santo, especialmente no sul do estado, esse tema merece atenção urgente. Regiões que precisam ampliar sua base de profissionais qualificados nas áreas de saúde, turismo, indústria e tecnologia não podem assistir passivamente à perda de jovens para uma economia da ilusão. Cada aluno que abandona um curso técnico, adia a faculdade ou perde renda em apostas representa menos desenvolvimento regional, menos produtividade e menos capacidade de inovação.

A resposta para esse problema não está apenas na regulamentação das plataformas. Ela passa também pela escola. O Brasil precisa incorporar com mais seriedade a educação financeira, a educação midiática e o debate sobre comportamento digital dentro das salas de aula. Os jovens precisam aprender não apenas matemática financeira, mas também como funcionam os mecanismos de manipulação, vício e recompensa usados por aplicativos e plataformas.

Mais do que isso: é preciso reconstruir a narrativa de que estudar vale a pena. Em um país onde o sucesso instantâneo é exaltado todos os dias, defender a educação como projeto de longo prazo virou quase um ato de resistência.

Porque nenhuma aposta oferece aquilo que a educação ainda pode garantir: autonomia, repertório, dignidade e futuro.

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