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Estudar para que... eu quero é monetizar na internet!

Janaina Dardengo 03/04/2026
Estudar para que... eu quero é monetizar na internet!

Por que tantos jovens parecem cada vez mais desmotivados com a escola?

A explicação mais comum costuma apontar para currículos desatualizados, excesso de conteúdo ou métodos de ensino pouco atraentes. Esses fatores existem e precisam ser enfrentados. Mas talvez o problema central seja mais profundo: estamos vivendo uma mudança cultural que alterou radicalmente a relação dos jovens com o conhecimento.

Nunca houve tanto acesso à informação. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil sustentar o valor do conhecimento.

Pesquisas internacionais, como o PISA, e levantamentos nacionais sobre engajamento escolar indicam que cresce o número de estudantes que afirmam não ver utilidade clara no que aprendem na escola. Não se trata apenas de dificuldade acadêmica. Muitos simplesmente não enxergam sentido no esforço de estudar.

Essa mudança tem relação com transformações culturais importantes.

A primeira é a velocidade da informação. Plataformas digitais oferecem respostas instantâneas, conteúdos curtos e recompensas rápidas. Nesse ambiente, processos longos de aprendizagem — que exigem concentração, disciplina e persistência — parecem cada vez mais distantes da lógica cotidiana dos jovens.

A segunda transformação é a fragmentação da autoridade do conhecimento. Durante décadas, a escola foi uma das principais fontes legítimas de saber. Hoje, jovens transitam por um universo informacional difuso: redes sociais, influenciadores, vídeos curtos, fóruns online. O professor deixou de ser a porta de entrada para o conhecimento. Muitas vezes, tornou-se apenas mais uma voz em meio a milhares de outras.

Mas há uma terceira mudança, talvez menos discutida, que tem impactado profundamente a percepção dos jovens sobre o valor da escola: a transformação das narrativas de sucesso.

Durante muito tempo, a promessa implícita da educação era relativamente clara. Estudar era o caminho para melhorar de vida. A escola representava uma ponte entre origem social e mobilidade.

Hoje, esse vínculo se tornou menos evidente.

Os jovens crescem assistindo diariamente a histórias de enriquecimento rápido nas redes sociais. Influenciadores, criadores de conteúdo e vendedores de cursos digitais exibem trajetórias de sucesso que parecem dispensar anos de estudo formal. A promessa de “ganhar milhões pela internet”, “viver de marketing digital” ou “faturar alto com poucos cliques” tornou-se parte do imaginário de muitos adolescentes.

Ao mesmo tempo, multiplicam-se narrativas de jovens empreendedores digitais que enriqueceram antes dos 25 anos, muitas vezes sem formação universitária. Plataformas de conteúdo e redes sociais transformaram visibilidade em capital econômico, criando uma nova cultura de sucesso associada à viralização, à audiência e à capacidade de vender no ambiente digital.

Para muitos estudantes, a mensagem implícita parece clara: talvez não seja necessário passar anos estudando para prosperar.

Mesmo quando essas histórias representam exceções — e não a regra — elas moldam expectativas.

Ao mesmo tempo, muitos jovens observam adultos diplomados enfrentando salários baixos, empregos instáveis ou trajetórias profissionais incertas. O contraste é evidente: enquanto a escola exige anos de esforço e disciplina, o universo digital frequentemente vende a ideia de resultados rápidos e recompensas imediatas.

Nesse cenário, o vínculo entre escola e futuro se fragiliza.

Se o esforço educacional não parece garantir mobilidade, e se histórias de sucesso sem formação formal circulam com tanta força nas redes, a pergunta que começa a surgir entre muitos jovens é simples: vale a pena estudar tanto?

Esse deslocamento cultural ajuda a explicar por que a desmotivação escolar não pode ser tratada apenas como um problema pedagógico. Trata-se também de uma crise de sentido.

Isso não significa que o conhecimento perdeu valor. Pelo contrário. Em um mundo cada vez mais tecnológico, automatizado e complexo, a capacidade de compreender, analisar, resolver problemas e aprender continuamente nunca foi tão necessária.

O que mudou foi a percepção cultural sobre para que serve aprender.

A grande tarefa da educação neste momento histórico não é apenas atualizar conteúdos ou introduzir novas tecnologias nas escolas. É reconstruir o sentido da aprendizagem.

Isso passa por aproximar a escola dos desafios reais da sociedade, conectar conhecimento com problemas concretos, fortalecer a educação técnica e profissional e mostrar aos jovens como o saber se transforma em capacidade de agir no mundo.

Mais do que transmitir informação, a escola precisa voltar a ser um espaço onde o conhecimento tem valor real para a vida.

Porque, no fundo, a crise da motivação escolar talvez não seja apenas uma crise da escola.

É uma crise de significado.

E reconstruir esse significado talvez seja uma das tarefas mais urgentes da educação neste século.

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