Eleição x Economia: A eleição terminou no domingo. A conta mudou na segunda

O primeiro turno mostrou como expectativas políticas chegam rapidamente ao dólar, aos juros e ao patrimônio dos brasileiros
No domingo, o brasileiro depositou seu voto na urna. Na manhã de segunda-feira, antes que qualquer nova política econômica fosse anunciada, o mercado já havia emitido seu próprio veredicto.
O dólar caiu, os juros futuros recuaram e a Bolsa disparou. Ao final do dia, a moeda americana estava cotada a R$ 5,0022, com queda de 4,12%, enquanto o Ibovespa avançou 7,85% e superou os 207 mil pontos. Durante o pregão, o índice chegou a ultrapassar os 209 mil pontos. (Agência Brasil)
Nada havia mudado concretamente na economia brasileira.
A dívida pública continuava a mesma. A inflação não havia desaparecido. Nenhuma reforma fora aprovada e nenhuma despesa havia sido cortada. O Brasil apenas acordou diante de uma nova distribuição de probabilidades para o segundo turno.
E probabilidades também têm preço.
A reação ocorreu depois de Flávio Bolsonaro terminar o primeiro turno à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os dois disputarão a Presidência em 25 de outubro. A leitura inicial dos investidores foi de redução do prêmio de risco dos ativos brasileiros.
Isso não significa que “o mercado” tenha título de eleitor ou preferência partidária. O mercado não é uma pessoa sentada diante da televisão torcendo por um candidato. É o resultado de milhões de decisões tomadas por investidores brasileiros e estrangeiros, cada um tentando antecipar os efeitos do próximo governo sobre gastos, impostos, juros, empresas e crescimento.
Na segunda-feira, esses investidores passaram a atribuir maior probabilidade a um cenário que consideraram mais favorável aos ativos. A reação apareceu imediatamente nos preços.
O câmbio é um dos primeiros lugares em que essa mudança se manifesta. Quando investidores percebem menos risco, cresce a disposição de trazer ou manter recursos no País. A maior oferta de dólares tende a fortalecer o real.
Os juros futuros também reagem. Se o mercado acredita que haverá maior controle das despesas e da dívida pública, pode exigir uma remuneração menor para financiar o governo por prazos mais longos.
Na Bolsa, o efeito é ampliado. Juros esperados mais baixos aumentam o valor presente das empresas, reduzem seu custo de financiamento e tornam as ações relativamente mais atraentes. Bancos, varejistas, construtoras e outras companhias sensíveis à economia doméstica podem subir com força.
Esse mecanismo ajuda a entender por que uma eleição política produz efeitos econômicos antes mesmo da posse.
Mas também revela um perigo.
Uma alta de quase 8% em um único dia não significa que os problemas brasileiros tenham sido resolvidos. Significa apenas que os preços foram ajustados a uma expectativa diferente. Até 25 de outubro, uma pesquisa, uma declaração ou uma nova proposta econômica poderá modificar novamente essas probabilidades.
O mesmo mercado que recebeu o resultado com euforia pode demonstrar frustração se as promessas não forem acompanhadas por números, apoio político e capacidade de execução.
O desafio econômico do próximo presidente será maior do que vencer a eleição. Será mostrar como pretende financiar suas prioridades, administrar a dívida pública, lidar com o Congresso e criar condições para o crescimento sem alimentar a inflação.
É isso que o investidor deveria observar durante o segundo turno.
Mais do que frases de campanha, será preciso procurar respostas concretas. Qual é a estratégia fiscal de cada candidato? Quem poderá comandar a economia? Quais medidas dependem do Congresso? Como serão tratadas as empresas estatais? Haverá previsibilidade tributária e regulatória?
O resultado de domingo mudou a percepção do mercado. Ainda não mudou a realidade econômica.
Essa distinção é essencial para quem investe. Comprar depois de uma alta expressiva apenas porque determinado candidato avançou pode ser tão arriscado quanto vender tudo porque o candidato preferido perdeu espaço. Em ambos os casos, a decisão deixa de ser financeira e passa a ser emocional.
No dia 25, o eleitor precisará escolher entre duas candidaturas. A carteira, entretanto, não deveria depender integralmente de nenhuma delas.
A eleição acontece em dois turnos. A economia se desenrola durante quatro anos, e os investimentos, muitas vezes, por décadas.
Na urna, escolhemos uma direção. Na manhã seguinte, o mercado começa a calcular quanto ela poderá custar.



